Notas do Silêncio 06
Em um mundo barulhento, apressado e caótico, pensar, sentir e escrever é um desvio. Poesia é resistência: a lente que revela o que vive no intervalo entre as coisas.
Preciso de palavras no papel,
de livros grifados.
Tenho a necessidade dos verbos,
Do pensamento em ação.
Tenho ancorado pensamentos
em palavras, com medo dos fluxos,
das muitas vozes, do avanço das horas,
da perda da sensibilidade,
de perder a contemplação.
Tenho vestido de poemas as contradições,
abraçado as interrogações.
Tenho explorado a falta de coesão.
Tenho ignorado o aviso escrito: fechado.
Perseguido temas que se dizem complexos.
Odeia a sensação de caixa, de cercas
e dessa ideia de permanecer onde é confortável
de me privar das experimentações.
Talvez esse seja o preço de não ter alma rasa
ter que me derramar, para enfim caber em mim.
Me desfazer em texto.
E qual seria a pior parte? Talvez seja a tradução.
Como se traduz a alma e seus estados?
Como apagar os rastros das palavras que queimam como fogo?
Como capturar a essência de um momento de reflexão?
Concluo que esse seja somente o retrato
de uma mente que não aceita o raso,
por isso, precisa transbordar em palavras
para não se perder de si.
Presumo que essa seja a minha sina:
Carregar o peso das palavras
sabendo do valor, proporções e marcas.



